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25 de maio de 2007

Dois poemas

Elegia a Bandeira

Quando cheguei em Pasárgada
o rei não quis me receber,
mandou a guarda me dizer
que nunca ouvira falar de mim.

Saí banzando pelas ruas
tão parecidas com todas as ruas
de qualquer cidade do mundo,
sujas com suas putas feias.

O hotel que eu queria
não tinha mais vaga;
dormi numa cama dura
de um quarto qualquer, no vigésimo andar.

E, no meio da noite,
acordei triste, angustiado
com vontade de me matar.
Aí eu abri a janela e fiquei olhando a noite silenciosa.

Luis


Cataléptico

Se eu morresse, não amanhã,
mas hoje, agora, neste exato instante,
e renascesse amanhã, ou depois,
ou daqui a dois meses, ou anos,
quem viria fechar meus olhos?

Por quanto tempo fechados ficariam
e, principalmente,
quem os abriria,
ou quem estaria diante de mim
quando eu os reabrisse.

Quanto tempo morreria eu?
para que pudesse,
no momento exato em que reabrisse os olhos,
ter você diante de mim, meu bem,
você e ninguém mais…

E eu te veria mais bela
e você me veria mais belo
e o abraço seria eterno
para eterna reconciliação.

Mas estou vivo, ainda,
e cheio de medos.
E se eu morrer, meu bem,
por quanto tempo seja,
você não vem abrir meus olhos
nem eu jamais os teria abertos.

Luis

3 de novembro de 2006

Às vezes
Quanto tempo dura a felicidade?
Às vezes, o tempo de um suspiro,
de um beijo,
de um toque.
Às vezes dura menos que um atraso.
Dura o tempo de uma aproximação
ou de um afastamento.
A felicidade, meu bem,
dura menos que uma saudade,
que uma declaração de amor,
menos, meu bem, que um orgasmo.
A felicidade, às vezes,
dura o tempo de perceber
que ela acabou,
ou não existiu.
A felicidade, meu bem,
só existe no passado.
Às vezes.
Luis

7 de setembro de 2006

Mais um poema

Hipopótamo
O hipopótamo é o animal
mais tranquilo que há.
Nada abala sua pesada calma
Um milhão de toneladas de placidez.
De uma só cor, de uma só pele,
o hipopótamo é só serenidade,
com seus olhos baixos, pequenos,
que com suave indiferença
fingem não perceber o que se passa.
O hipopótamo, parado, na água parada,
afogadamente descansa,
indolente, moroso,
desdenhoso das urgências da vida.
A pressa, a angústia, as tensões,
a escassez, a necessidade, o fim dos tempos,
o dinheiro, esse terrível mal humano,
inerte, o hipopótamo despreza.
Quanta sabedoria! Quanta paz!
Quem me dera, meu Deus,
quem me dera, um dia,
ser um hipopótamo!

Luis

6 de agosto de 2006

Um poema

O quarto do artista
No quarto do artista
há desejos, há resquícios e sons,
há mulheres nuas e vestidas
com lágrimas nos olhos.
Há, no quarto do artista,
alguns pedaços de obra-prima
esperando a inspiração daquele homem
quieto, sentado, pensativo, angustiado.
Sentado em seu quarto,
o artista finge que chora
ou que ri ou que goza ou medra.
No quarto do artista,
enquanto ele recria o mundo,
a noite, em vez de amanhecer, espera.

Luis